O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou como uma “matança” e “desastrosa” a megaoperação policial realizada na semana passada no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho. Em entrevista concedida nesta terça-feira (4), em Belém, a jornalistas de agências internacionais, o presidente criticou a condução da ação e defendeu a participação da Polícia Federal nas investigações sobre as mortes.
Segundo Lula, a operação, que resultou em um elevado número de mortes, extrapolou os limites da decisão judicial. “A decisão do juiz era uma ordem de prisão, não uma ordem de matança. E houve a matança”, afirmou. O presidente acrescentou que pretende solicitar a presença de legistas da Polícia Federal no processo de apuração para garantir transparência e rigor técnico. “É importante verificar em que condições ela se deu. Do ponto de vista da quantidade de mortes, alguns podem considerar um sucesso, mas, do ponto de vista da ação do Estado, foi desastrosa”, declarou.
A megaoperação, que mobilizou forças estaduais de segurança contra integrantes do Comando Vermelho em comunidades da capital fluminense, gerou ampla repercussão nacional e internacional devido ao número de mortos e ao uso intenso de armamento pesado. Entidades de direitos humanos e organizações civis têm cobrado apurações sobre eventuais excessos das forças policiais.
As declarações de Lula provocaram reações imediatas. Em entrevista à GloboNews, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, considerou o comentário do presidente “precoce”. Para o parlamentar, antes de qualquer julgamento, é necessário compreender os objetivos e a execução da operação.
“Foi uma declaração precipitada. O formato da operação e o ambiente em que ela ocorreu já indicavam que haveria um número elevado de mortes. O que precisamos é entender tecnicamente o que se pretendia, e não transformar o debate em palanque político”, afirmou Vieira. Ele ressaltou que a discussão deve se concentrar em resultados concretos e no papel do Estado no enfrentamento ao crime organizado.
Horas depois da entrevista em Belém, Lula publicou uma mensagem nas redes sociais sem mencionar diretamente a polêmica, mas destacando medidas de segurança pública do governo federal. O presidente afirmou que o governo atua “para quebrar a espinha dorsal do tráfico de drogas e do crime organizado, com mais inteligência, integração entre as forças e foco nos cabeças das facções”.
De acordo com o chefe do Executivo, desde 2023, ações federais já retiraram R$ 19,8 bilhões das mãos do crime organizado. Ele também mencionou o Projeto de Lei Antifacção, que propõe endurecimento de penas e bloqueio financeiro de facções, e a PEC da Segurança Pública, que busca integrar as forças policiais, incorporar as guardas municipais e garantir recursos permanentes para estados e municípios.
O debate sobre o papel das forças policiais e a responsabilidade do Estado em operações de grande porte deve continuar no centro das discussões políticas e jurídicas. Enquanto o governo tenta reforçar sua política de segurança baseada em inteligência e integração, as críticas à violência e à letalidade das ações no Rio reacendem uma antiga controvérsia nacional sobre os limites da força no combate ao crime organizado.