Manaus – A relação entre um servidor na Câmara Municipal de Manaus (CMM) e um instituto de pesquisas eleitorais está gerando controvérsias no cenário político do Amazonas. Documentos públicos revelam que um funcionário comissionado do gabinete do vereador Coronel Rosses (PL) tem vínculos societários com uma empresa que obtém resultados favoráveis para pré-candidatos do Partido Liberal no estado.
Francisco José da Costa Aires Filho ocupa a função de Assistente Parlamentar Comissionado (APC-1) no gabinete do vereador Coronel Rosses desde maio de 2025. Além de sua função pública, ele é sócio da empresa OPP O Primeiro Portal Pesquisa de Mercado Ltda, que opera como Iveritas IP, atuando em comunicação e pesquisas de opinião pública e eleitoral.
O Portal da Transparência da Câmara Municipal de Manaus indica que o servidor recebeu uma remuneração mensal de cerca de R$ 3,2 mil em 2026, com alguns períodos ultrapassando R$ 4,5 mil. As informações sugerem que ele continua vinculado ao gabinete enquanto também participa da empresa que realiza os levantamentos eleitorais.
Resultados Favoráveis e Implicações Eleitorais
A situação ganhou notoriedade com a divulgação de uma pesquisa eleitoral registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número AM-03018/2026. O levantamento destacou a pré-candidata Maria do Carmo (PL) como muito competitiva para o Governo do Amazonas e posicionou o deputado federal Capitão Alberto Neto (PL) em vantagem na corrida para o Senado.
A pesquisa não apenas beneficiou membros do PL, mas também indicou altos índices de rejeição para adversários políticos, o que potencializa seu impacto no cenário pré-eleitoral do estado. A empresa responsável pela pesquisa, fundada em março de 2016, possui um capital social declarado de R$ 20 mil e opera no bairro Adrianópolis, zona Centro-Sul de Manaus. A dualidade de atuação como instituto de pesquisa e empresa de comunicação aumenta as preocupações sobre a influência que tais levantamentos podem ter no discurso público.
Contratos Públicos e Fiscalização
Outro aspecto que despertou atenção refere-se ao recebimento de recursos públicos pela empresa da qual o servidor é sócio. Dados oficiais revelam que a OPP O Primeiro Portal Pesquisa de Mercado Ltda recebeu R$ 40 mil entre janeiro e abril de 2026, através da cota parlamentar do deputado estadual Delegado Péricles.
Os pagamentos foram feitos em quatro parcelas mensais de R$ 10 mil, categoricamente descritos como despesas de consultoria e assessoria de comunicação. Essa circunstância se destaca especialmente pelo fato de Delegado Péricles ser irmão de Coronel Rosses, criando um evidente conflito de interesses devido à atuação do sócio em seu gabinete.
A empresa já está sob a mira da Justiça Eleitoral, uma vez que o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) autorizou uma auditoria técnica sobre a pesquisa registrada sob o número AM-03018/2026, após questionamentos da sigla Avante.
Na decisão, o juiz eleitoral Cássio André Borges dos Santos permitiu o acesso a documentos técnicos relacionados ao levantamento, incluindo planilhas de dados, identificação dos entrevistadores, questionários aplicados, e outros detalhes sobre a metodologia utilizada.
O Ministério Público Eleitoral apoiou a auditoria, enfatizando a necessidade de verificar a precisão dos dados utilizados na pesquisa. Esse processo é fundamental para assegurar a integridade das informações eleitorais que afetam a opinião pública.
Procurado para comentar a situação, o vereador Coronel Rosses não havia se manifestado até o fechamento desta matéria. O espaço continua aberto para eventuais esclarecimentos que possam elucidar a questão.
A relação entre a atividade eleitoral, pesquisas de opinião e recursos públicos requer supervisão rigorosa. O vínculo entre o servidor e a empresa, aliado às circunstâncias de recebimento de verbas públicas, levanta sérias preocupações sobre a ética e a transparência no uso de recursos na política. Com evidências crescentes de conflitos de interesse, a necessidade de auditorias e investigações aumentam, a fim de manter a integridade no processo político do Amazonas.

