Um enredo complexo, marcado por articulações políticas, interesses privados e decisões financeiras arriscadas, ameaça comprometer de maneira profunda o futuro previdenciário de milhares de servidores públicos do Amazonas. A sequência de revelações envolvendo a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master, e o desaparecimento de R$ 300 milhões aplicados pela AmazonPrev em bancos digitais abriu uma crise que se espalha por esferas políticas e partidárias, alcançando o governador Wilson Lima e o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda.
A operação que levou Vorcaro à prisão aponta para um esquema de R$ 12 bilhões, mas seus desdobramentos vão além do campo criminal: revelam conexões de alto nível entre o banqueiro e líderes do União Brasil, especialmente Rueda, cuja influência em Brasília é frequentemente descrita como decisiva para destravar negociações e aproximar empresários de agentes públicos. Bastidores de Brasília relatam que Vorcaro circulava com grande liberdade entre políticos de destaque, obtendo apoio político e institucional que fortalecia os negócios do Banco Master, especialmente no mercado de títulos arriscados, que dependem de prestígio e captacão de fundos públicos para manter o ritmo de expansão.
Esse vínculo se torna particularmente sensível quando se observa que, durante esse período de proximidade entre Vorcaro e dirigentes do União Brasil, o Banco Master passou a aparecer em transações envolvendo fundos de previdência estaduais. Analistas do setor ressaltam que esse tipo de articulação política é um fator decisivo para que bancos de menor porte se tornem destinatários de grandes aportes públicos — cenário que, para muitos, explica parte do interesse do Master em estados governados por aliados da sigla.
É nesse ponto que o Amazonas entra na rota. Como presidente estadual do União Brasil, Wilson Lima está subordinado à direção comandada nacionalmente por Antônio Rueda. Trata-se de uma relação política contínua, baseada em alinhamento partidário e troca de apoios estratégicos. Quando a AmazonPrev — sob gestão de um nome indicado diretamente por Wilson — aplicou R$ 50 milhões no Banco Master, a instituição de Vorcaro vivia seu auge de influência nos bastidores políticos graças justamente ao prestígio de Rueda e outros articuladores em Brasília.
O então diretor-presidente da AmazonPrev, Ary Renato Vasconcelos de Souza, não era um nome distante do núcleo político do Governo do Estado: ele havia sido contador da campanha de Wilson Lima. Durante sua gestão, entre junho e setembro de 2024, foram feitas as aplicações consideradas inconstitucionais — R$ 250 milhões no C6 Bank e R$ 50 milhões no Master. Logo após as operações, Ary deixou o cargo e foi substituído por Evilázio Nascimento, em um ato administrativo que gerou estranheza entre servidores e conselheiros, já que não houve processo eletivo interno como prevê o regimento.
A substituição se tornou ainda mais questionável ao se descobrir que Evilázio é irmão do ex-ministro e presidente estadual do PL, Alfredo Nascimento. A mudança no comando da AmazonPrev, portanto, levantou suspeitas de que a troca poderia ter sido fruto de interesses políticos e não técnicos — possivelmente uma tentativa de fortalecer alianças estratégicas do governador com partidos importantes diante de votações futuras.
As denúncias do Sindicato dos Trabalhadores da Justiça do Amazonas (Sintjam) levaram o caso ao Ministério Público Estadual e ao Ministério Público Federal. A ausência dos recursos foi detectada durante reuniões do conselho da fundação, quando conselheiros cobraram esclarecimentos sobre os investimentos. Segundo relatos, Evilázio atribuiu toda a responsabilidade ao ex-dirigente Ary Renato antes de abandonar o cargo.
O que agrava a situação é que o Banco Master está em liquidação extrajudicial. Isso significa que os R$ 50 milhões investidos pela AmazonPrev não contam com proteção do Fundo Garantidor de Créditos — que cobre apenas até R$ 250 mil por cliente. Na prática, quase toda a quantia pode simplesmente nunca retornar aos cofres públicos, representando um golpe potencialmente irreparável na maior reserva financeira do Estado.
Em paralelo, servidores públicos acompanham com apreensão cada novo desdobramento. Para muitos deles, a sensação é de que a previdência estadual, construída ao longo de décadas de trabalho e contribuição, pode ter sido colocada em risco por um jogo político envolvendo alianças partidárias, interesses pessoais e decisões administrativas obscuras. A preocupação não é apenas financeira, mas moral: temem que a aposentadoria tenha sido usada como moeda de troca em um tabuleiro de poder que beneficia poucos e penaliza milhares.
À medida que as investigações avançam, cresce a expectativa por responsabilização e transparência. O escândalo da AmazonPrev expõe não apenas falhas de gestão, mas uma engrenagem de influências que conecta banqueiros, dirigentes partidários e autoridades estaduais — uma rede que, se comprovada, poderá representar um dos maiores ataques à segurança previdenciária do Amazonas em toda a sua história.