“R$ 180 bilhões e hospitais vazios”: fiscalização federal expõe desmonte, desabastecimento e suspeitas de fraude na Saúde do Amazonas

A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) está no centro de uma ampla e inédita fiscalização federal após denúncias graves de desabastecimento, abandono estrutural e possíveis irregularidades na aplicação de recursos bilionários. A operação, deflagrada nesta quinta-feira (27), atende a uma solicitação do deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM), membro da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados, e seguirá até sexta-feira (28).

A comitiva deve visitar unidades de saúde, ouvir profissionais e pacientes, analisar contratos e mapear falhas sistêmicas que colocam a população em risco. A meta é consolidar um relatório técnico a ser encaminhado ao Ministério Público, Tribunal de Contas da União e demais órgãos de controle, além de propor medidas legislativas para recuperar a rede estadual.

Segundo o gabinete do deputado Amom Mandel, a denúncia não se trata de um episódio isolado, mas de um quadro generalizado que afeta todas as áreas da assistência hospitalar e ambulatorial.


Desabastecimento generalizado de medicamentos essenciais

As denúncias colhidas pela equipe parlamentar e confirmadas durante as inspeções revelam a falta de medicamentos fundamentais para pacientes crônicos, pediátricos, cardíacos, neurológicos e imunossuprimidos. Entre os itens em falta estão:

  • Ácido ursodesoxicólico

  • Azacitidina

  • Ciclosporina

  • Risperidona, inclusive versão líquida, vital para crianças com TEA

  • Insulina

  • Hidroxicloroquina

  • Mesalazina

  • Tacrolimo

  • Topiramato

  • Gabapentina

  • Calcitriol

  • Codeína

  • Sulfasalazina

Segundo Amom, esses medicamentos não são complementares — são indispensáveis à manutenção da vida de milhares de pacientes. A ausência prolongada está provocando agravamento de quadros clínicos, regressão de tratamentos e risco de sequelas permanentes.


Falhas de regulação e denúncias de compra de vagas

Outro ponto alarmante é o colapso do SISREG, sistema responsável por encaminhar pacientes a consultas e procedimentos especializados. O deputado Sidney Leite (PSD-AM), que acompanha a fiscalização, denunciou a completa falta de controle sobre a fila e relatou casos de compra de vagas, descrevendo a situação como “um absurdo” que prejudica o cidadão e fere o princípio da transparência.

Há pacientes que esperam meses — e até anos — por consultas em áreas como neuropediatria, cardiologia e fonoaudiologia. Em muitos casos, quando finalmente são chamados, precisam passar por nova triagem para reavaliar se o tratamento ainda é necessário, uma consequência direta da demora.


“Não falta dinheiro”, dizem os deputados

De acordo com Sidney Leite, a crise não tem relação com escassez orçamentária. O parlamentar afirmou que o governo Wilson Lima já arrecadou mais de R$ 180 bilhões em sua gestão e que os repasses federais para a saúde somente em 2025 somam R$ 3,434 bilhões, distribuídos assim:

  • R$ 1,5 bilhão – Atenção Primária

  • R$ 1,5 bilhão – Média e Alta Complexidade

  • R$ 37 milhões – Assistência Farmacêutica

“Não falta dinheiro. O problema é para onde esse dinheiro está indo”, disse Leite, comparando a situação com o Pará, que arrecada menos, tem mais municípios e população maior — mas mantém seus serviços de saúde funcionando com mais eficiência.

Amom reforçou a denúncia ao afirmar que os recursos são “pulverizados” pela SES-AM sem planejamento consistente e que existem suspeitas de fraudes milionárias que precisam ser investigadas.


Estrutura sucateada e obras atrasadas

Durante a fiscalização, a Comissão identificou uma série de falhas estruturais em unidades estaduais. No Hospital Regional Hilda Freire, em Iranduba, a situação foi descrita como “crítica”:

  • Obra de reforma atrasada desde agosto de 2025.

  • Aparelho de raio-x quebrado desde 2024.

  • Autoclave fora de funcionamento.

  • Sala de cirurgia de média complexidade desativada.

  • Interrupções no sistema de oxigênio por falta de manutenção.

Os problemas têm sobrecarregado o SPA Jovem Dias e unidades de Manaus, ampliando filas, transferências e demora no atendimento.


Fiscalização continua pelo interior

Além de Manaus e Iranduba, a comitiva deve visitar Borba e outros municípios que também sofrem com falta de medicamentos, estrutura fragilizada e ausência de especialistas.

Ao final da coletiva, Amom Mandel afirmou que a missão representa o Congresso Nacional “em defesa da população que depende do SUS” e que a meta é identificar onde estão sendo aplicados — ou desviados — os recursos da saúde.

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