Manaus — O que deveria ser um momento de demonstração de força e união em torno do projeto político de Maria do Carmo (PL) no Amazonas transformou-se em uma vitrine de insatisfação interna. A política, que tenta se firmar como o principal nome do Partido Liberal (PL) no estado, vem sofrendo um processo agudo de desidratação política, marcado pelo “sumiço” de parlamentares de seu próprio partido em seus palanques e eventos oficiais. Até mesmo em um vídeo convidando para a próxima convenção que marcará o lançamento da pré-candidatura, os deputados Delegado Péricles e Cabo Maciel, além dos vereadores Raiff Matos e Coronel Rosses, sequer aparecem.
O racha ficou evidente com a ausência destes nomes nas recentes movimentações e convenções promovidas por Maria do Carmo e pelo presidente estadual da sigla, Alfredo Nascimento. Lideranças com mandato, como o Delegado Péricles, o vereador Raiff Matos, o Coronel Rosses e o Cabo Maciel, vêm adotando uma postura de distanciamento, pulando fora do barco de uma liderança que consideram imposta.
O isolamento de Maria do Carmo
Nos bastidores e nas redes sociais, o esvaziamento do palanque de Maria do Carmo tem uma explicação clara: a base ideológica do partido não reconhece nela uma representante legítima dos valores da direita. A tentativa de unificar a sigla sob a chancela de Alfredo Nascimento tem surtido o efeito reverso, gerando uma debandada silenciosa dos correligionários.
O nível de insatisfação ficou escancarado por um fato que não passou despercebido: no exato mesmo dia em que o PL-AM gravou um vídeo institucional com membros da cúpula para promover Maria do Carmo, o Delegado Péricles, que fez questão de não participar da gravação oficial, publicou um vídeo dando uma contundente indireta à pré-candidata ao governo.
Sem citar nomes, mas com um endereço inconfundível, Péricles utilizou as redes sociais para criticar a tentativa de imposição de liderança “a depender do apoio à pré-candidata do PL”. O deputado ressaltou que a fidelidade ideológica não se mede pelo “alinhamento a uma pessoa que tenta impor sua liderança, e não por valores, trajetória e coerência de conduta”.
Histórico questionado e as sombras da velha política
O isolamento de Maria do Carmo não é fruto apenas de disputas por espaço, mas de um choque de perfis. A ala conservadora e bolsonarista do PL-AM enxerga na aliança de Maria do Carmo com Alfredo Nascimento um retorno às práticas da “velha política”. Além disso, as recentes declarações da política, admitindo ter o ex-governador Wilson Lima como “inspiração” para entrar na vida pública, caíram como um balde de água fria em uma militância que faz oposição ferrenha à gestão estadual.
A situação se agrava com as lembranças de polêmicas passadas, como acusações de caixa dois e o desempenho de suas instituições de ensino no MEC, munição que tem sido usada internamente para questionar a viabilidade de seu projeto eleitoral.
Apoio não se impõe
Enquanto a cúpula do partido, representada por Alfredo Nascimento, tenta decretar o “fim de papo” e forçar a adesão em convenções, a base parlamentar responde com o boicote presencial. O sumiço do Delegado Péricles, Raiff Matos, Coronel Rosses e Cabo Maciel dos eventos de Maria do Carmo envia um recado amargo para a coordenação de sua campanha: a estrutura partidária oficial não garante o capital político das ruas.
Como bem lembrou o Delegado Péricles em sua indireta, ecoando as palavras do senador Flávio Bolsonaro, “apoio não se impõe”. Para a ala raiz do partido, ser de direita vai muito além de apoiar quem chegou “há pouco tempo”. Resta saber se Maria do Carmo conseguirá reverter o processo de desidratação antes que seu palanque se torne sustentado apenas pela cúpula burocrática, sem a força de quem, de fato, detém os votos e a militância no estado.

