A relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), voltou a se desgastar após semanas de aparente trégua política. O motivo do novo desentendimento é a escolha do deputado Guilherme Derrite (PP-SP), secretário de Segurança Pública licenciado do governador paulista Tarcísio de Freitas, para relatar o projeto de Lei Antifacção, iniciativa considerada estratégica para o governo na área de segurança pública.
Segundo fontes do Palácio do Planalto, Lula considerou a indicação de Derrite uma afronta e uma demonstração de deslealdade por parte de Motta. O presidente teria telefonado pessoalmente ao chefe da Câmara no sábado (9) para expressar sua insatisfação, em tom direto e crítico.
Para o governo, a escolha de um aliado de Tarcísio — possível adversário de Lula nas eleições de 2026 — para conduzir um tema sensível como o combate às facções criminosas foi uma jogada política que enfraquece a imagem da gestão petista no debate sobre segurança pública, uma área em que o Planalto enfrenta críticas recorrentes da oposição.
Nos bastidores, assessores de Lula acusam Hugo Motta de “jogo duplo”: ora alinhado com o Executivo, ora atuando em sintonia com a bancada conservadora e com o grupo ligado ao governador paulista. Já interlocutores de Motta defendem que sua postura é institucional e necessária para manter o equilíbrio entre os diferentes blocos que compõem o Congresso.
Hugo Motta, por sua vez, minimizou o impasse. Em resposta às críticas, afirmou que a condução da proposta será técnica e imparcial, destacando que o combate ao crime organizado não deve ser tratado como bandeira partidária. O parlamentar também anunciou que o texto passará a ser chamado de “Marco Legal do Combate ao Crime Organizado”, em tentativa de dar um novo enfoque à proposta.
Em publicação feita no domingo (9), Motta afirmou que “não importa de onde a ideia vem; se ela é boa para o país, a gente leva adiante”, acrescentando que o novo texto pretende conciliar as melhores partes do projeto original do governo federal com as contribuições debatidas no Congresso.
Ainda assim, aliados de Lula avaliam que a manobra fragiliza o diálogo entre o Planalto e a Câmara, num momento em que o governo busca recompor sua base e avançar em pautas de segurança e economia. O episódio reabre o sinal de alerta político, expondo mais uma vez as dificuldades de articulação entre Executivo e Legislativo e os desafios do governo para consolidar apoio num cenário de fragmentação partidária.