A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, decretada neste sábado (22) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), provocou forte repercussão não apenas no meio político, mas também dentro das Forças Armadas. Enquanto Bolsonaro passou a cumprir a medida na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, fontes do alto comando do Exército relatam que a corporação não foi comunicada com antecedência sobre a operação e recebeu a notícia já com o ex-presidente a caminho da PF.
Bolsonaro foi instalado em uma sala especial — a chamada sala de estado maior — equipada com cama, televisão e ar-condicionado, estrutura destinada a militares que não podem ser encaminhados a celas comuns. Ainda assim, segundo oficiais consultados, o Exército não teve participação na preparação do espaço e tampouco foi acionado para oferecer qualquer suporte logístico, o que gerou estranhamento. Na prisão do tenente-coronel Mauro Cid, por exemplo, a Força chegou a preparar uma cela devidamente adaptada.
Nos bastidores da instituição, a avaliação é de que a possibilidade de prisão só seria discutida após o esgotamento dos recursos no STF. A detenção repentina, acompanhada da justificativa de risco à ordem pública e de suposta tentativa de violação da tornozeleira eletrônica, teria agravado a percepção de que o comando do Exército está enfraquecido e distante das decisões que envolvem figuras relevantes da instituição.
O clima de insatisfação, relatado tanto por militares da ativa quanto da reserva, se dirige especialmente ao comandante do Exército, general Tomás Paiva. Parte da tropa vê sua postura como demasiadamente alinhada ao Judiciário e ao governo, interpretando seus movimentos como ausência de defesa a militares investigados em casos sensíveis relacionados ao ex-presidente. Entre as queixas mais frequentes está a operação que apreendeu o celular de Mauro Cid, no ano passado, vista por setores da corporação como um episódio que só ocorreu porque o comando não se opôs.
Um coronel ouvido sob anonimato afirmou que “o Alto Comando se afastou da realidade da tropa”, expressão que ecoa principalmente entre oficiais intermediários, sargentos e tenentes. Para esses grupos, a cúpula estaria mais voltada à manutenção de cargos e missões internacionais do que à proteção institucional dos pares atingidos por investigações.
Diferentemente de episódios anteriores, não houve articulação interna para demonstrar apoio a Bolsonaro, nem qualquer movimento para intervir no processo de custódia. A ausência de consulta ao Exército é interpretada internamente como sinal de perda de influência, abrindo mais um capítulo da relação já tensionada entre o comando e alas que permanecem politicamente próximas ao ex-presidente.
Enquanto o cenário se mantém instável, Bolsonaro aguarda a audiência de custódia marcada para este domingo (23), ao meio-dia, que definirá a continuidade ou não de sua prisão preventiva. A movimentação dentro do Exército indica que a decisão já deixou marcas profundas e acentuou a divisão interna sobre o papel da instituição no atual momento político do país.