Escândalo: SSP transfere R$ 22,6 milhões à empresa Logic Pro

Escândalo: SSP transfere R$ 22,6 milhões à empresa Logic Pro

Em abril de 2026, Roberto Cidade, ao assumir interinamente o Governo do Amazonas, fez um anúncio que ressoou em todo o estado. A suspensão de contratos entre o Estado e empresas ligadas à sua família foi divulgada com a intenção de evitar questionamentos sobre moralidade administrativa e conflito de interesses. Este ato, à primeira vista, parecia ser um passo em direção à transparência. Porém, investigações subsequentes revelaram uma realidade mais complexa.

O Portal da Transparência Fiscal trouxe à tona números que contradizem o suposto compromisso com a moralidade. Antes de sua posse, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) já havia transferido R$ 522 mil à Logic Pro. Contudo, após o anúncio, esse valor disparou para R$ 22,67 milhões. Como esse aumento drástico de gastos se justifica após uma declaração de suspensão? Isso amplia as dúvidas sobre a real intenção do governo.

Os pagamentos controversos após o anúncio

A análise dos pagamentos efetuados pela SSP à Logic Pro em 2026, realizada em 12 de agosto, revela que o montante total chega a impressionantes R$ 23,19 milhões. O detalhe alarmante é que apenas R$ 522 mil foram pagos antes da posse de Cidade, representando 2,3% do total anual. Em contrapartida, a partir do anúncio feito em 17 de abril, a cifra salta para R$ 22,67 milhões, ou 97,7% do valor total.

Um episódio particularmente chamativo ocorreu numa única data, 24 de abril, quando foram emitidas seis ordens bancárias totalizando R$ 9.796.498,87. Isso corresponde a 42,2% do total pago no ano, levantando questões sobre a urgência e a natureza desse pagamento. Quatro desses pagamentos foram categorizados como Despesas de Exercícios Anteriores, que geralmente são utilizadas para regularizar obrigações não processadas no tempo adequado.

Essa situação é ainda mais nebulosa considerando que, no mesmo dia em que foram realizados esses pagamentos, foi quitada uma nota de empenho datada de junho de 2025, três dias antes mesmo da assinatura do contrato. A falta de um ato administrativo oficializando a suspensão dos contratos denunciados é um defeito grave. Sem essa formalização, a intenção de Cidade de cortar relações com empresas familiares se torna duvidosa.

A natureza do consórcio

Adicionalmente, a Logic Pro tem ligações com a Navegação Cidade, uma empresa da família do governador, através de um consórcio que foi registrado apenas 14 dias antes do contrato. O Consórcio Cidade–Logic Pro foi constituído em 2 de junho de 2025 e já no dia 16 do mesmo mês, o contrato foi assinado. Essa cronologia levanta questões sobre a verdadeira capacidade técnica da Navegação Cidade em oferecer serviços que envolvem monitoramento eletrônico, em vez de suas habituais operações de navegação fluvial.

A Ata de Registro de Preços, de março de 2025, listava exclusivamente a Navegação Cidade antes que o consórcio fosse formado. Essa tática, permitida pela legislação vigente, levanta suspeitas sobre a intenção por trás da formalização tardia do consórcio. Considerando que a necessidade de serviços de monitoramento era clara, a qualificação técnica prévia da empresa em questão permanece incerta.

Os gastos na área de Segurança Pública de R$ 43,7 milhões em 2025 contrastam fortemente com os apenas R$ 516 mil recebidos pela empresa em 2020, uma diferença notável que substancia as suspeitas de favorecimento. A coincidência desses valores com a presidência de Cidade na Assembleia Legislativa e a exclusividade dos contratos da SSP abrem uma porta para possíveis investigações sobre irregularidades.

A situação legal

Eventos posteriores culminaram em uma representação de improbidade administrativa apresentada em 23 de junho de 2026. O vereador Coronel Rosses solicitou ao Ministério Público investigações sobre o comportamento de Roberto Cidade, do ex-secretário de Segurança e das empresas associadas. As questões levantadas pela representação não se limitam às práticas individuais, mas abrangem uma estrutura complexa de contratações realizadas em diversos órgãos estaduais.

O material fornecido na representação inclui documentação pública que, em conjunto, evidencia uma rede de contratos que merecem ser examinados com cuidado. A falta de atos administrativos que formalizem a suspensão das relações contratuais destaca um cenário nebuloso e acende luzes vermelhas sobre a administração do Governo do Amazonas.

À luz de todos esses eventos, é imperativo que uma investigação minuciosa seja realizada para esclarecer as relações entre o governo e as empresas ligadas a ele. O que, a princípio, parecia ser uma tentativa de coragem política pode acabar revelando um padrão mais profundo de irregularidades administrativas.

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