Cristiano Beraldo, aliado do MBL e financiador do partido Missão, entra na mira do escândalo bilionário da Refit

A Operação Poço de Lobato, deflagrada na quinta-feira (27), transformou o comentarista político Cristiano Beraldo — figura influente na Jovem Pan, aliado estratégico do MBL e um dos principais financiadores do partido Missão — em um personagem central de um dos maiores casos de fraude fiscal já investigados no Brasil. Aos 47 anos, Beraldo passa a ser apontado pelo Ministério Público como integrante de uma rede que teria contribuído para a sonegação de aproximadamente R$ 26 bilhões em impostos pelo grupo Refit, dono da antiga refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Beraldo, conhecido pela retórica dura e por defender punições severas a criminosos, sempre se colocou publicamente como símbolo de combate à corrupção. Não raramente, atacou autoridades e políticos de diferentes espectros ideológicos com discursos moralistas. Agora, enfrenta acusações que atingem diretamente o tipo de crime que costumava condenar. Segundo o Cira-SP, ele atuava na gestão de várias offshores nos Estados Unidos, supostamente ligadas ao empresário Ricardo Magro, apontado pela Justiça como o líder da estrutura criminosa.

Entre as empresas atribuídas ao comentarista estão a Cascais Bay LLC e a Oceana KB Real Estate LLC, além de outras companhias que dividem vínculos e endereços com estruturas ligadas ao próprio Magro. Documentos também indicam que Beraldo assumiu cargo de CEO da J. Global Energy Inc., que mantém relações comerciais com a refinaria de Manguinhos. O Ministério Público considera essa teia de offshores parte essencial do núcleo internacional de blindagem patrimonial do esquema.

A trajetória de Beraldo na política e na comunicação ajuda a dimensionar o impacto do caso. Herdeiro de uma família tradicional do Rio de Janeiro, com nomes como Delfim Moreira e Bilac Pinto em sua linhagem, ele construiu carreira no setor privado antes de se aproximar do universo político. Atuou na campanha de Gustavo Bebianno e, mais tarde, integrou o grupo que levou Eduardo Paes à prefeitura em 2020. Chegou a ocupar a Secretaria de Turismo, mas deixou o cargo alegando divergências internas. Sua aproximação com o MBL ocorreu posteriormente, quando passou a colaborar com campanhas do grupo e se lançou candidato a deputado estadual em 2022, sem sucesso.

No ecossistema de comunicação conservadora, Beraldo se consolidou como uma voz radical. Na Jovem Pan, virou um dos comentaristas mais contundentes contra o governo Lula, defendendo endurecimento penal, operações policiais de alta letalidade e críticas agressivas a políticas públicas. Em diversas ocasiões, associou problemas estruturais do Estado a adversários políticos, ignorando que muitos deles atravessavam gestões de diferentes partidos.

A operação que agora o envolve cumpriu 126 mandados em seis estados e no Distrito Federal, mirando 190 alvos. A Justiça descreve o esquema como um sistema complexo que utilizava empresas de fachada, fundos de investimento com operações irregulares, transferências externas, superfaturamento imobiliário e fintechs que movimentaram mais de R$ 70 bilhões de forma suspeita. O modus operandi teria permitido ao grupo Refit evitar tributações bilionárias ao longo de anos, prejudicando os cofres públicos.

Após ter seu nome citado na investigação, Beraldo divulgou um vídeo afirmando ter sido “surpreendido” pela operação e anunciou afastamento dos programas da Jovem Pan. A emissora não se pronunciou oficialmente sobre a situação, assim como o MBL, apesar de sua relevância como financiador do movimento e do partido Missão. Enquanto isso, Ricardo Magro segue foragido, alternando estadias entre Miami e Portugal.

A Refit disse que não há sonegação e que apenas discute débitos tributários na Justiça, prática comum entre grandes empresas, segundo sua nota. Já o FIDD Group, também alvo da ação, declarou seguir normas legais e ter rompido laços com envolvidos no caso.

O escândalo tem repercussão imediata no cenário político e na direita organizada. A inclusão de Beraldo entre os investigados expõe contradições entre discursos de moralidade e práticas de bastidores, reacendendo debates sobre financiamento político, uso de offshores e a influência de comentaristas que moldam opinião pública. A investigação segue sob sigilo, e novos desdobramentos podem transformar ainda mais o quadro nas próximas semanas.

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