Cortes dos EUA sob Trump deixam rede humanitária brasileira à beira do colapso em 2026

Organizações humanitárias que atuam no país enfrentam, para 2026, o cenário mais crítico de sua história após cortes drásticos promovidos pelo governo Donald Trump na USAid, principal agência norte-americana responsável por financiar programas sociais em todo o mundo. Sem renovação de contratos e sem perspectivas de novas parcerias internacionais, entidades tradicionais já trabalham no limite financeiro — e muitas só continuam funcionando graças ao esforço voluntário de funcionários que, em alguns casos, passaram a atuar sem receber salários.

 

Um dos exemplos mais emblemáticos é o da Cáritas-RJ, que há quase cinco décadas presta assistência a refugiados e imigrantes em situação de vulnerabilidade. A coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados, Aline Thuller, afirma que a instituição nunca enfrentou uma crise semelhante: apesar de quase 20 anos de atuação, ela própria está sem remuneração. Os repasses do Acnur — parceiro histórico da Cáritas há mais de 40 anos — foram drasticamente reduzidos após a agência da ONU perder cerca de 25% de seu orçamento global, reflexo direto dos cortes americanos e da retração financeira de países europeus como França, Reino Unido e Alemanha, que priorizaram investimentos em Defesa em meio à guerra na Ucrânia.

 

O impacto imediato foi o encerramento de um programa de subsistência que garantia auxílio emergencial para imigrantes recém-chegados ao Brasil, ajudando na alimentação, em consultas médicas básicas e até no pagamento de aluguel. Além disso, o tradicional curso gratuito de português sofreu atraso e parte dos colaboradores da instituição precisou ser desligada.

 

A crise não atinge apenas entidades tradicionais. Em São Paulo, a Casa 1 — centro cultural e de acolhimento a pessoas LGBTQIAPN+ fundado em 2017 — anunciou que fechará as portas em abril de 2026. A organização, que acolhe jovens expulsos de casa, pessoas em situação de rua e ainda mantém atividades para idosos da região do Bixiga, viu seu principal fluxo de financiamento desaparecer após a suspensão imediata dos fundos internacionais que sustentavam parte de suas ações.

 

Segundo o diretor institucional Iran Giusti, o movimento conservador impulsionado por Trump intensificou o desafio de manter projetos de diversidade. Ele afirma que além da perda de recursos, a entidade passou a enfrentar um ambiente hostil, marcado por ataques constantes nas redes sociais e pela necessidade diária de justificar sua existência. Sem apoio internacional e com empresas retraindo doações, a Casa 1 tenta sobreviver com contribuições particulares na expectativa de concluir o acompanhamento das pessoas que já estão sob seus cuidados.

 

Ao assumir o poder, Trump nomeou Elon Musk para comandar o Doge — Departamento de Eficiência Governamental — encarregado de reduzir gastos públicos e “enxugar” estruturas federais. A USAid foi um dos principais alvos dessa política: ao longo de 2025, seus programas foram sendo encerrados, e os últimos contratos expiraram com o novo ano fiscal americano, em outubro, deixando um vácuo que ameaça projetos sociais em diversos países, incluindo o Brasil.

 

Para especialistas e representantes das entidades afetadas, os próximos meses serão decisivos. Sem uma reorganização urgente do financiamento internacional, parte significativa da rede humanitária brasileira corre o risco de fechar as portas definitivamente em 2026, deixando milhares de pessoas vulneráveis sem assistência.

 

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