O ex-vereador Adilson Amadeu (União Brasil), figura marcada por duas condenações na Justiça por manifestações antissemitas, reassumiu temporariamente uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo nesta segunda-feira (17). Ele volta ao Legislativo paulistano após a vereadora Pastora Sandra Alves, do mesmo partido, solicitar licença de 31 dias para tratar de assuntos pessoais.
A movimentação ocorre em um momento político especialmente sensível. Durante o período em que estará na Casa, Amadeu participará de votações estratégicas, como a definição do orçamento municipal de 2026 e a escolha da nova Mesa Diretora — decisões que influenciam diretamente o comando administrativo e financeiro do Legislativo no ano seguinte. O retorno foi confirmado no Diário Oficial, que oficializou a exoneração do ex-parlamentar do cargo de confiança que ocupava na prefeitura desde outubro.
Antes de voltar ao plenário, Amadeu atuava na Secretaria Especial de Relações Institucionais da gestão de Ricardo Nunes. Sua nomeação havia provocado forte reação de entidades judaicas, que criticaram o ingresso de um condenado por antissemitismo em um posto dentro do Executivo municipal. A pressão cresceu com a proximidade de votações internas importantes e da articulação política para a disputa da Mesa Diretora, que tem entre seus articuladores integrantes da família Leite, grupo influente no União Brasil.
Nas redes sociais, Amadeu comemorou o retorno, afirmando que reassume o mandato “como vereador eleito democraticamente” e prometendo dedicação às atividades legislativas durante o período. Ele destacou as votações relevantes que ocorrerão até o recesso de dezembro, reforçando que pretende participar ativamente das discussões.
A licença da Pastora Sandra Alves gerou questionamentos, mas seu gabinete afirmou apenas que o afastamento atende a “interesses particulares”. Não houve detalhamento sobre a motivação nem confirmação se ela retornará à cadeira imediatamente ao fim do prazo.
Condenações por antissemitismo
A trajetória recente de Amadeu no Legislativo e na gestão municipal é marcada por episódios graves de discriminação contra judeus. Em 2023, ele foi condenado a dois anos e seis meses de reclusão, em regime inicial aberto, após compartilhar em um grupo de WhatsApp mensagens consideradas pela Justiça como racistas e de incitação ao antissemitismo. A pena incluiu a determinação de perda da função pública.
Segundo a denúncia, o ex-vereador associou judeus a supostas práticas ilícitas e afirmou que um grupo de instituições ligadas à comunidade judaica estaria envolvido em “sem-vergonhice”. A Federação Israelita do Estado de São Paulo acionou a Justiça, e a condenação foi divulgada amplamente na época.
Antes disso, em 2022, Amadeu já havia sido condenado por injúria racial ao atacar o vereador Daniel Annenberg (PSDB) durante uma sessão da Câmara em dezembro de 2019. Na ocasião, ele dirigiu ofensas antissemitas ao colega, utilizando xingamentos relacionados à origem judaica de Annenberg. A pena, de um ano e quatro meses de prisão, foi substituída por prestação de serviços comunitários e pagamento de R$ 10 mil por danos morais.
Após o episódio, Amadeu chegou a pedir desculpas publicamente no plenário, embora tenha justificado que também se sentiu ofendido durante o debate que antecedeu a discussão.
As decisões judiciais contra o ex-vereador continuam a repercutir e são lembradas por entidades e parlamentares sempre que seu nome volta ao centro do cenário político paulistano.
Com a vacância temporária criada pela licença da vereadora Pastora Sandra, sua volta reacende debates sobre limites éticos, responsabilidades públicas e o peso de condenações judiciais na ocupação de cargos legislativos.