Cientista política aponta desinstitucionalização da Câmara e diz que só bolsonarismo entendeu peso do Congresso em 2026

Os episódios de violência registrados na Câmara dos Deputados na última semana reacenderam o debate sobre o funcionamento do Congresso Nacional e o equilíbrio entre os Poderes. Para a cientista política Beatriz Rey, doutora pela Syracuse University e pesquisadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, as cenas não são fatos isolados, mas sintomas de um processo profundo de desinstitucionalização da Câmara.

 

A confusão envolveu a retirada forçada do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) da Mesa Diretora, durante protesto contra a tentativa de cassação de seu mandato, além de agressões a jornalistas que acompanhavam a sessão. O caso levou a Associação Brasileira de Imprensa a anunciar que acionará a Procuradoria-Geral da República para apurar possível crime de responsabilidade do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

 

Segundo Beatriz Rey, o Congresso vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que se fortaleceu institucionalmente, ampliando sua capacidade de propor e aprovar leis, também passou a apresentar sinais claros de fragilidade interna. Esse enfraquecimento se manifesta quando conflitos políticos deixam de ser resolvidos por meio de acordos e regras institucionais e passam a recorrer à força ou a decisões improvisadas.

 

A pesquisadora afirma que o problema ficou evidente quando o presidente da Câmara, sem controle efetivo do plenário, optou por acionar a Polícia Legislativa para conter a crise. Para ela, sempre que a violência se torna instrumento de resolução de conflitos, isso indica falha das instituições em cumprir seu papel básico de mediação.

 

O cenário é agravado pela escalada de tensão entre o Legislativo e o Supremo Tribunal Federal. Um dos exemplos recentes é a controvérsia em torno da deputada Carla Zambelli (PL-SP). Mesmo após condenação criminal, a Câmara decidiu manter o mandato, o que levou o STF a intervir e determinar sua perda automática. Para Rey, a omissão da Câmara em exercer suas próprias prerrogativas força o Judiciário a ocupar um espaço que não deveria ser seu.

 

Na avaliação da cientista política, a atual presidência da Câmara enfrenta dificuldades para construir consensos. Diferentemente de Arthur Lira, que mantinha controle rígido do plenário, Hugo Motta não conseguiu consolidar liderança suficiente para coordenar votações sensíveis, o que contribui para o ambiente de instabilidade e perda de autoridade institucional.

 

Outro fator central nesse processo é o uso das emendas parlamentares. Segundo Rey, elas deixaram de ser instrumento de construção de base governista e passaram a funcionar como moeda de troca pontual, inclusive em votações de alta relevância institucional. Essa dinâmica reforça o poder do Centrão e aprofunda o desequilíbrio entre os Poderes.

 

Ao analisar o cenário pré-eleitoral de 2026, Beatriz Rey afirma que apenas o bolsonarismo compreendeu plenamente a importância estratégica das eleições legislativas. O grupo, segundo ela, já atua para formar maioria no Congresso, especialmente no Senado, enquanto outros campos ideológicos ainda concentram esforços quase exclusivamente na disputa presidencial.

 

Para a pesquisadora, a crise atual expõe uma falha mais ampla da sociedade brasileira: a baixa valorização do voto para deputado e senador. Sem maior atenção à escolha de representantes comprometidos com o funcionamento institucional do Parlamento, episódios de instabilidade tendem a se repetir, independentemente de quem ocupe a Presidência da República.

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