Amazonas – Nesta terça-feira (14), o Amazonas relembra cinco anos de uma das maiores tragédias sanitárias do país: o colapso do oxigênio que matou pacientes asfixiados em hospitais de Manaus, uma chacina por omissão, consequência direta da inação e da falta de preparo do governo Wilson Lima, apesar dos alertas. Já se passaram 1.826 dias, e ninguém respondeu por isso.
Na data, enquanto hospitais superlotavam e profissionais de saúde tentavam salvar vidas com o que tinham, o Governo do Amazonas assistia à explosão de internações sem conseguir garantir o insumo mais básico para manter pessoas respirando. A cidade virou símbolo mundial de um desastre anunciado e, meia década depois, ninguém foi responsabilizado.

“Era decidir quem respirava”: lembranças de um caos evitável
No Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio, a técnica de enfermagem Cíntia Elisa enfrentou a escolha impossível: reduzir o oxigênio de um paciente para que outro tivesse chance de sobreviver.
“Se tinha 10 litros para cada um, virou 2 litros. A gente fazia balanço de quem precisava mais. Uma loucura”, relembra.
A cena se repetiu em unidades de todas as zonas da cidade, corredores lotados, hospitais fechando portas e famílias transportando cilindros em carros particulares enquanto o governo era incapaz de fazer a logística mais elementar: comprar e distribuir oxigênio.
O médico Juan Carlos Villagomez, na linha de frente, reviveu o trauma:
“A UTI estava lotada, parecia cenário de guerra. Às 14h, recebi a notícia: minha irmã morreu sem oxigênio. E não era só ela.”
Estima-se que mais de 60 óbitos diretos foram provocados pela falta do insumo, número que familiares, defensores e especialistas consideram subnotificado.

Avisos ignorados, governo paralisado
Documentos e investigações mostram que alertas oficiais foram enviados ao estado dias antes do colapso. Em 11 de janeiro, a White Martins informou que o consumo estava seis vezes maior e os estoques não dariam conta.
Mesmo assim, não houve ampliação imediata da produção, nem plano de distribuição, nem transferência em massa antes da tragédia.
14 de janeiro marca o dia em que Manaus ficou literalmente sem ar:
– Consumo estimado de oxigênio: 76,5 mil m³
– Produção total disponível: 28,2 mil m³
– Déficit: 48,3 mil m³ — um abismo que custou vidas
O governo recorreu às pressas ao transporte de cilindros por aviões militares e transferiu doentes para outros estados só depois de declarar o colapso.
Quem responde por isso? Até agora, ninguém
Wilson Lima permanece no cargo, nunca enfrentou punição administrativa ou criminal, apesar dos documentos, investigações e da CPI que apontaram falhas gritantes de planejamento e resposta.
Para vítimas e familiares, a omissão foi tão letal quanto o vírus.
A disputa por memória, justiça e verdade
Nos últimos anos, decisões judiciais garantiram indenizações isoladas e o Ministério Público Federal entrou com ações que podem somar R$ 4 bilhões em reparações.

Há pedidos para:
construir memoriais permanentes
criar programas de assistência aos familiares
garantir transparência e responsabilização
produzir relatórios públicos de apuração
Mas nenhuma dessas medidas devolve vidas perdidas, e a maioria das famílias segue sem apoio, sem respostas e sem justiça.
O peso da história e a omissão que permanece
Cinco anos depois do dia em que faltou ar em Manaus, o episódio segue marcado por:
dor que não cicatrizou
silêncio oficial
fuga de responsabilidade política
e o temor de que a história possa se repetir
Enquanto o governo tenta se vangloriar de usinas de oxigênio e novos equipamentos, o que permanece é a lembrança do caos anunciado, e a cobrança por quem permitiu que ele acontecesse.
E o governador Wilson Lima, que comandava o estado naquele janeiro, segue sem pagar a conta política e moral dessa tragédia.