Em um artigo publicado pelo Financial Times, a colunista Gillian Tett afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu vitorioso no prolongado embate tarifário com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A análise revisita meses de tensão entre Brasília e Washington, motivada pelo tarifaço imposto pelos EUA em agosto, que elevou para 50% a taxação de centenas de produtos brasileiros.
Logo no início do texto, Tett ironiza o recuo de Trump. Ela recupera o acrônimo “TACO” — Trump Always Chickens Out (“Trump sempre amarela”) — que ganhou força nas redes sociais brasileiras em forma de memes durante o pico da crise. A expressão, segundo ela, virou munição para usuários que passaram a provocar o líder americano, insinuando que sua postura agressiva frequentemente termina em recuos estratégicos.
A retomada das tarifas normais, anunciada na semana passada, retirou a sobretaxação de mais de 200 itens como café, carne bovina, cacau e frutas, ampliando a lista de exceções ao tarifaço. A decisão veio logo após uma reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reforçando o impacto da articulação diplomática brasileira.
Trump justificou o tarifaço como uma medida necessária para proteger a segurança nacional, mas o Financial Times destaca que, internamente, a pressão sobre o custo de vida e a queda na confiança dos consumidores tornaram a manutenção das tarifas politicamente arriscada. Para Tett, o recuo revelou um ponto sensível do governo americano.
A colunista argumenta que a reação firme de Lula às ameaças de Washington fortaleceu sua imagem interna e mostrou que “valentões respondem à força”. Ela afirma que a postura brasileira se assemelha à de países que já entenderam como explorar as fragilidades do estilo confrontativo de Trump, especialmente a China.
Tett lista ainda três lições do episódio: a sensibilidade da Casa Branca ao impacto econômico doméstico; a resposta de Trump à pressão direta; e a necessidade de distinguir táticas de objetivos reais na política externa americana. Ela caracteriza o comportamento do presidente dos EUA como “errático”, destacando que movimentos abruptos — como o recuo tarifário ou a súbita reaproximação com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani — são comuns e fazem parte de uma estratégia de curto prazo voltada apenas a gerar vantagem momentânea.
Segundo ela, Trump opera com métodos que lembram sua trajetória empresarial: bullying, ameaças, reviravoltas, favoritismos e anúncios dramáticos para saturar o debate público. Esses gestos, embora ruidosos, não representam metas duradouras, o que permite ao governo mudar de direção “sem qualquer constrangimento”.
Ao final, Tett admite que alguns podem interpretar sua análise como uma tentativa de racionalizar um governo notoriamente imprevisível. Mesmo assim, reforça que distinguir o “ruído” do “sinal” é essencial para entender a lógica da Casa Branca atual. E, nesse cenário, afirma, Lula conseguiu transmitir uma mensagem clara: líderes que parecem todo-poderosos raramente o são na prática.