Um militar carioca, atualmente destacado em Belém (PA) para os preparativos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), gravou um áudio revoltado que viralizou em grupos de WhatsApp e redes sociais nesta semana. Na gravação, ele critica duramente a decisão do governo federal de decretar uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na capital paraense — com milhares de militares mobilizados — enquanto o Rio de Janeiro enfrenta a pior crise de segurança da década.
“Instituíram GLO aqui em Belém por causa da COP30, que nem começou, mas não autorizaram a GLO no Rio de Janeiro, onde o bagulho tá pegando fogo. Tudo jogo de interesse, irmão”, desabafa o militar, que pede anonimato por medo de represálias.
A GLO — medida que autoriza o uso das Forças Armadas em situações de grave perturbação da ordem — foi confirmada pelo governo federal para o período de 6 a 30 de novembro, atendendo a um pedido do governador Helder Barbalho (MDB-PA). Estão previstos 8 mil agentes das Forças Armadas e de segurança pública na operação de proteção à COP30, que reunirá líderes mundiais e movimentos ambientais em Belém.
“Eu tô aqui participando da formatura, são 5 mil homens entre as Forças Armadas e as forças de segurança. Isso aqui tá acontecendo na surdina, não vai passar no Jornal Nacional. É sacanagem”, afirma o militar no áudio, que rapidamente se espalhou pelas redes.
Enquanto isso, o Rio “pega fogo”
O desabafo reflete a indignação de parte das forças de segurança diante da escalada de violência no Rio de Janeiro, palco da megaoperação “Contenção”, deflagrada na última terça-feira (28). A ação, considerada a mais letal da história fluminense, deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais, e resultou em 113 prisões e 93 fuzis apreendidos, segundo balanço da Polícia Civil.
Moradores dos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, relataram ter recolhido dezenas de corpos em áreas de mata e os levado a praças para identificação. O governador Cláudio Castro (PL) classificou a operação como um “sucesso”, destacando que o estado “atuou sozinho”, sem apoio federal.
Castro também revelou que três pedidos de empréstimo de blindados do Exército, feitos em janeiro e fevereiro de 2025, foram negados pela Advocacia-Geral da União (AGU). “Pra emprestar o blindado, tinha que ter GLO, e o presidente é contra a GLO”, criticou.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), comandado por Ricardo Lewandowski, rebateu. Em nota, informou que não houve pedido formal para a operação de 28 de outubro e ressaltou que a Força Nacional atua no estado desde 2023, com 11 renovações de permanência, além de 178 operações da Polícia Federal neste ano, que resultaram em 210 prisões e 10 toneladas de drogas apreendidas.
Lewandowski observou que decretar GLO implica o reconhecimento da incapacidade das forças locais, algo que o governo do Rio “não formalizou”.
Governadores reagem e articulam apoio interestadual
O episódio reacendeu o debate sobre a falta de coordenação entre estados e União no combate às facções. Nesta quarta-feira (29), Cláudio Castro se reuniu virtualmente com Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO), Jorginho Mello (SC) e Mauro Mendes (MT). O grupo pretende se reunir presencialmente nesta quinta (30) no Palácio Guanabara.
Os governadores discutem medidas como o endurecimento penal do PL 2.428/2025, que equipara facções criminosas a organizações terroristas, e o envio de tropas estaduais para reforço emergencial no Rio.
“O combate ao crime organizado não pode ter fronteiras. É responsabilidade de todos”, declarou Jorginho Mello. Caiado, por sua vez, acusou o governo federal de “complacência com o crime”, e Zema afirmou que “resolver o Rio é resolver o Brasil”.
Debate político e institucional
Enquanto a oposição pressiona por uma resposta imediata, o governo Lula defende a PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025), que cria um Sistema Único de Segurança e amplia os poderes da Polícia Federal.
A Comissão de Direitos Humanos do Senado, por outro lado, pede investigação sobre a letalidade da operação fluminense, questionando se a ação respeitou os princípios do Estado Democrático de Direito.
Com a COP30 se aproximando, o contraste entre as formaturas de militares em Belém e as imagens de corpos nas favelas do Rio evidencia a disputa simbólica por prioridades: proteger um evento internacional ou salvar vidas em território nacional.
“O Rio tá em chamas e aqui os caras inventando moda…”, conclui o militar no áudio que virou símbolo de frustração entre agentes da segurança.