“Estão brincando com a vida do meu pai”: Hospital no AM em crise

“Estão brincando com a vida do meu pai”: Hospital no AM em crise

Manaus – No palanque das redes sociais, o Amazonas parece viver um conto de fadas administrativo, regado a promessas e milhões em propagandas políticas. Mas basta pisar na calçada de um pronto-socorro para que a ilusão desmorone. É exatamente nessa trincheira, na frente do Hospital Platão Araújo, que a engenheira Vilciane Araújo trava a batalha mais dolorosa de sua vida: tentar impedir que a negligência do Estado assine a certidão de óbito de seu pai.

Internado desde o dia 1º de agosto no Hospital Delphina Aziz, o idoso sofre de uma doença gravíssima e necessita de um Implante Transcateter de Válvula Aórtica (TAVI). O procedimento, que custa cerca de R$ 200 mil na rede privada, não é realizado pela rede pública do Amazonas. O que deveria ser um caso de acionamento imediato da rede particular pelo Governo do Estado ou transferência emergencial, transformou-se em um cruel “empurra-empurra”.

Após 21 dias de agonia no Delphina Aziz, o Hospital Universitário Francisca Mendes — que deveria ser referência — recusou o paciente sob a justificativa de não realizar o procedimento. A “solução” do sistema? Dar alta para um homem que oscila entre a vida e a morte. Sem condições de ficar em casa, o pai de Vilciane precisou dar entrada às pressas no Platão Araújo na mesma noite.

A Insensibilidade da Máquina Política

Desesperada, Vilciane recorreu a quem deveria representar os interesses do povo. Em suas redes sociais, marcou diretamente o político Roberto Cidade, clamando por socorro: “O meu pai precisa de uma cirurgia EXTREMAMENTE URGENTE”.

A resposta que obteve, no entanto, é o retrato da desconexão gélida entre a classe política e o sofrimento real da população. Em vídeo gravado na frente do Platão Araújo, Vilciane revelou ter recebido uma ligação de uma assistente de Roberto Cidade. A mensagem da assessoria? Um ultrajante pedido de paciência.

“Recebi uma ligação de uma das assistentes do Roberto Cidade, pedindo pra eu me acalmar, pra eu entender o lado deles, que não depende deles… que está no sistema do TFD (Tratamento Fora de Domicílio) e está acima deles”, relatou a filha, com a voz embargada pela revolta.

O cinismo de pedir a uma filha — que assiste o pai definhar a cada minuto — para “entender o lado” de um político é a prova definitiva da falência moral das nossas lideranças. Como se entende o lado de quem tem a caneta na mão, mas prefere usá-la para assinar cheques de campanha em vez de guias de cirurgia na rede privada?

Um Caso de Indiferença e Negligência

A indignação de Vilciane é o grito entalado na garganta de milhares de amazonenses. “Eu tenho certeza que se fosse o pai de um deles que tivesse na situação do meu, isso aí já teria sido resolvido. Mas até hoje, até agora, meu pai tá lá… e a palavra ‘urgência’, ‘gravíssimo’, não significa mais nada para ninguém”, desabafa.

Enquanto o TFD não funciona, enquanto a transferência de estado não chega e enquanto o Governo se recusa a arcar com os R$ 200 mil na rede particular local (onde a cirurgia está amplamente disponível), a família Araújo vive um calvário. Até mesmo a humilhação extrema foi tentada: a irmã de Vilciane chegou a se jogar no meio de uma multidão para pedir clemência aos pés do governador. Nada foi feito.

“Dinheiro está rolando, as campanhas estão rolando aí. E o meu pai precisa fazer essa cirurgia. O governador não autoriza. Estão brincando com a vida dele como se não valesse nada”, denuncia Vilciane.

A Pergunta que Ecoa nas Calçadas do Platão Araújo

A pergunta que ecoa nas calçadas do Platão Araújo nesta noite e que Roberto Cidade e o Governo do Amazonas precisam responder não é sobre estatísticas ou burocracias de TFD. A pergunta, feita por uma filha com lágrimas nos olhos e pânico no coração, é muito mais simples:

“Se eu não posso contar com o governo do estado para garantir a vida do meu pai, eu vou contar com quem?”

O silêncio das autoridades já é, por si só, uma resposta fúnebre. Resta saber se o Ministério Público e a sociedade fecharão os olhos para mais uma vida sendo descartada na fila da ineficiência do Amazonas.

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