Netanyahu desafia a ONU, rejeita Estado Palestino e promete seguir guerra em Gaza sob protestos globais

Durante um dos discursos mais polêmicos da 80ª Assembleia Geral da ONU, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, voltou a adotar um tom desafiador e confrontou a comunidade internacional ao afirmar que a guerra na Faixa de Gaza continuará “até que o trabalho seja concluído”. O pronunciamento, feito nesta sexta-feira (26), foi marcado por protestos dentro e fora do plenário, pela retirada de dezenas de delegações — incluindo a do Brasil — e por uma série de declarações que reafirmam o isolamento crescente de Israel no cenário global.

Netanyahu entrou no salão da ONU sob vaias. Antes mesmo de começar a falar, a maioria das comitivas abandonou o local em sinal de repúdio. Permaneceram apenas representantes de países como Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Espanha e Noruega, além de observadores da União Europeia. Do lado de fora, milhares de manifestantes se reuniram em Nova York, exigindo o fim dos bombardeios e acusando o governo israelense de cometer crimes contra civis palestinos.

Durante mais de 40 minutos — quase o triplo do tempo recomendado pela ONU —, Netanyahu exibiu novamente um mapa do Oriente Médio com marcações sobre áreas de conflito e destacou as ações militares de Israel contra grupos como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis. Ele chegou a riscar o mapa com um marcador, afirmando ter “eliminado a maior parte da ameaça do Oriente Médio”, e citou ataques realizados na Síria, no Iêmen e até contra alvos iranianos.

“Derrubamos milhares de terroristas, desmantelamos o programa nuclear iraniano e incapacitamos o Hezbollah”, disse o premiê, em tom de vitória. Apesar disso, afirmou que a ofensiva em Gaza ainda não terminou: “Devemos permanecer vigilantes. Ainda não acabamos o trabalho.”

Em resposta à recente onda de países que reconheceram o Estado Palestino — entre eles Reino Unido, França e Espanha —, Netanyahu classificou as decisões como “vergonhosas” e “um incentivo ao terrorismo”. Ele comparou a criação de um Estado Palestino próximo a Israel ao “estabelecimento da Al-Qaeda a um quilômetro de Nova York após o 11 de Setembro”, declarando que jamais aceitará essa proposta.

O premiê negou veementemente que o Exército israelense esteja atacando civis ou provocando fome em Gaza, onde mais de 65 mil pessoas morreram desde o início da guerra. “Se há fome, é culpa do Hamas, que rouba os alimentos”, disse, atribuindo as dificuldades humanitárias à organização palestina.

Em um gesto simbólico, Netanyahu afirmou que o discurso estava sendo transmitido por alto-falantes em Gaza e dirigiu-se diretamente aos reféns israelenses mantidos pelo Hamas: “Nós não esquecemos vocês. Vamos trazê-los de volta para casa.”

Cada vez mais isolado, o líder israelense aproveitou o momento para agradecer ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por seu apoio e por ações que, segundo ele, impediram o avanço nuclear do Irã.

Enquanto isso, dentro do plenário, a delegação brasileira — formada por sete diplomatas — deixou o local vestindo o keffiyeh, tradicional lenço palestino, repetindo o gesto de protesto feito em 2024. O Itamaraty confirmou que a decisão foi uma orientação oficial do governo brasileiro, em repúdio à política israelense em Gaza.

Netanyahu encerrou o discurso afirmando que Israel “luta uma batalha não apenas por si, mas pelo mundo civilizado”. As palavras, no entanto, foram recebidas com silêncio pela maioria da comunidade internacional, simbolizando o crescente isolamento político de Israel diante da tragédia humanitária que se prolonga há mais de dois anos.

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